
Depois da Segunda Guerra Mundial, os países da Europa
Oriental ficaram sob a área de influência da
União Soviética. Com exceção
da Iugoslávia e da Albânia, todos eles seguiam
rigorosamente as diretrizes do Partido Comunista da União
Soviética. É claro, portanto, que a introdução
da perestroika e da glasnost iria desencadear
enormes mudanças também nesses países.
Por seu significado no jogo da guerra fria, o grande marco
dessas mudanças foi a queda do muro de Berlim, em
novembro de 1989. A destruição do muro –
que o mundo inteiro viu com a sensação de
estar assistindo ao próprio desenrolar da História
– simbolizou como nenhum outro fato o esfacelamento
do mundo socialista e a redefinição do poder
no mundo.
Vamos examinar a transformação ocorrida nos
países da Europa Oriental, um por um: Polônia,
Hungria, Tchecoslováquia, Bulgária, Romênia,
Albânia, Alemanha Oriental e Iugoslávia.
Polônia
Na Polônia, o processo de transformações
políticas e econômicas começou antes
que em qualquer outro país socialista. Já
no final da década de 1970 e início da de
1980, movimentos grevistas agitaram os principais centros
industriais do país, principalmente os estaleiros
de Gdansk.
Diante da falta de iniciativa das autoridades e dos sindicatos,
atrelados ao governo, um grupo de operários e de
intelectuais fundou um sindicato independente, o Solidarnosc
(Solidariedade). Sua combatividade entusiasmou os operários,
que aderiram em massa à organização.
A iniciativa dos trabalhadores e de seus líderes,
entre os quais se destacava Lech Walesa, atingiu frontalmente
as autoridades, que passaram imediatamente a combater o
Solidariedade. Como não conseguiram resultado, em
1982 o governo instaurou a lei marcial, e o sindicato foi
declarado ilegal e proibido de funcionar.
Os anos seguintes foram extremamente difíceis. O
Solidariedade funcionou na ilegalidade e diversos membros
da sua direção estiveram presos.
Com a perestroika na União Soviética,
a partir de 1985, a situação começou
a mudar, e em 1988 o sindicato emergiu novamente com força,
liderando uma onda de greves. O governo foi obrigado a ceder.
Por um acordo assinado entre o Solidariedade e o governo,
em abril de 1989, a ilegalidade do sindicato foi revoga
da e foram estabelecidas novas regras para o jogo político:
foi criado o cargo de presidente da República e instituído
um Parlamento com duas câmaras.
Em junho do mesmo ano, o Solidariedade, agora transformado
em partido, conquistou 99 das 100 cadeiras do Senado e 35%
das da Câmara dos Deputados (65% haviam sido reservadas
aos comunistas e seus aliados). Tadeus Mazowiecki, um dos
principais líderes do Solidariedade, assumiu o cargo
de primeiro-ministro.
O Partido Comunista, após as eleições,
passou a perder força a cada dia, até tornar-se
totalmente inexpressivo.
Em 1990 Lech Walesa venceu a primeira eleição
para presidente da República. Durante seu governo,
procurou acelerar o processo de retorno da economia polonesa
às regras do livre mercado.
Hungria
Em 1956 a Hungria fez uma tentativa de mudar os rumos do
socialismo. Imre Nagy liderou um movimento que propunha
a democratização do regime, com maior
liberdade de expressão e certa liberalização
da economia, mas as tropas enviadas pela
facção stalinista do PC esmagaram a rebelião.
O sucessor de Nagy , embora seguisse inicialmente a orientação
de Moscou, começou lentamente a introduzir algumas
reformas na economia. A produção de bens de
consumo passou a ter prioridade e as empresas estatais ganharam
maior autonomia. A coletivização da agricultura
foi abandonada, os camponeses ganharam liberdade para comercializar
suas safras. Graças a essas medidas, o abastecimento
alcançou excelentes níveis de eficiência,
difíceis de observar nos outros países socialistas.
Com o advento da perestroika, essas reformas foram
aceleradas por iniciativa do próprio Partido Socialista
Operário Húngaro (o Partido Comunista). Em
fevereiro de 1989 foi abolido o sistema de partido único
e introduzido o pluripartidarismo. No ano seguinte realizaram-se
eleições para a Presidência da República
e o Parlamento.
A transição para a economia de mercado manteve-se
em ritmo acelerado. Em 1990 a Hungria inaugurou a primeira
bolsa de valores do mundo socialista.
Tchecoslováquia
Em 1968, Alexander Dubcek, então secretário-geral
do Partido Comunista da Tchecoslováquia, iniciou
um intenso movimento de democratização do
país, que ficou conhecido como Primavera de Praga.
Os tanques do Pacto de Varsóvia interromperam violentamente
as reformas e Dubcek foi destituído do cargo.
Só em 1977 é que um novo movimento começou
a estruturar-se com a publicação de um manifesto
assinado por diversos intelectuais. A Carta 77
protestava contra a repressão e exigia maior respeito
aos direitos humanos. A violenta reação do
governo interrompeu o processo, que seria retomado apenas
na segunda metade da década de 80, graças
à perestroika.
A partir de 1987 a oposição se reorganizou
e recomeçaram os protestos contra o regime. O movimento
intensificou-se em 1989, quando os intelectuais da Carta
77 passaram a liderá-lo. Eles tinham fundado o Fórum
Cívico, cujo líder mais importante era Vaclav
Havel, grande escritor e teatrólogo.
Rapidamente o movimento de oposição, fortalecido
por grandes manifestações populares, obrigou
o Partido Comunista a deixar o poder, que foi assumido pelo
Fórum Cívico. Em dezembro de 1989 Alexander
Dubcek assumiu a presidência da Câmara dos Deputados.
Vaclav Havel tornou-se presidente da República. As
mudanças na Tchecoslováquia receberam o nome
de revolução de veludo.
Com a democratização, voltou a manifestar-se
o nacionalismo eslovaco, represado durante o regime socialista.
Em 1º de janeiro de 1993, concluindo um processo pacífico
de negociação, a Tchecoslováquia dividiu-se
em dois Estados indepentendentes: a República Tcheca
e a Eslováquia.
Alemanha
Oriental
A República Democrática Alemã, ou Alemanha
Oriental, era o país mais desenvolvido de todo o
Leste europeu. Erich Hõnecker era seu dirigente máximo.
Na década de 1980, para manter a política
de subsídios, característica dos regimes socialistas,
o governo recorreu a empréstimos externos, endividando
o país e diminuindo os investimentos em infra-estrutura.
Em decorrência, a economia entrou em crise. Mais do
que nunca, os alemães orientais se viram tentados
a cruzar a fronteira com a Alemanha Ocidental, o país
mais rico da Europa, em busca de novas oportunidades de
trabalho. Nem o muro de Berlim conseguia desestimular as
fugas.
No final de década de 1980, com a abertura dos regimes
da Polônia e da Hungria, consolidou-se uma via segura
de evasão. Como não era necessário
passaporte para transitar entre os países socialistas,
os alemães orientais dirigiam-se para a Polônia
e a Hungria e dali para o Ocidente, sem maiores dificuldades.
Em agosto de 1989, quando a Hungria abriu suas fronteiras
com a Áustria, milhares de alemães orientais
atravessaram a Tchecoslováquia, a Hungria e a Áustria
e chegaram à Alemanha Ocidental.
Em setembro começaram a ocorrer em diversas cidades
grandes manifestações populares em favor de
reformas. A polícia política – Stasi
–tentava reprimi-las, mas com pouco sucesso. Em 1989,
Egon Krenz, um dos altos dirigentes do Partido Comunista,
derrubou Erich Hõnecker e deu início a reformas
no partido e no regime.
Em novembro de 1989, sem ver outra alternativa, o governo
de Egon Krenz determinou a derrubada do muro de Berlim.
Foi uma festa. Milhares de pessoas ajudaram alegremente
a quebrar a muralha. Todos queriam participar daquele momento
histórico. Em três dias, 3 milhões de
alemães-orientais foram visitar Berlim Ocidental.
Eram recebidos com alegria e ganhavam de presente do governo
ocidental alguns marcos para comemorar a liberdade.
O muro de Berlim, que tinha sido o marco principal da divisão
do mundo entre capitalismo e socialismo, tornava-se o símbolo
mais importante da derrocada do mundo socialista.
A população passou a se organizar em partidos,
sindicatos e grupos políticos diversos, alguns dos
quais defendiam a reunificação da Alemanha.
Entre esses movimentos destacou-se o Novo Fórum,
com uma plataforma contrária reunificação
e a favor da democratização do socialismo.
Era, até o início de 90, a agremiação
favorita nas eleições previstas para abril.
Mas, de olho na unificação, partidos políticos
da Alemanha Ocidental interferiram na política interna
Oriental, especialmente Helmut Kohl, chanceler (primeiro-ministro)
e membro da Democracia Cristã. Procurando agrupar
os conservadores, Kohl conseguiu formar uma coalizão
– Aliança pela Alemanha – com um discurso
pró-unificação que surtiu efeito junto
ao eleitorado alemão oriental, esvaziando a força
do Novo Fórum.
Nas eleições, a Aliança pela Alemanha
recebeu sozinha 48% dos votos para o Parlamento da Alemanha
Oriental. Helmut Kohl conseguira seu intento: em 3 de outubro
de 1990 a Alemanha foi reunificada.
Após os festejos que uniram alemães dos dois
lados, começou o processo de absorção
da parte oriental pela parte ocidental. Muitas empresas
do leste foram fechadas, pois utilizavam tecnologia superada.
A moeda oriental foi trocada pela ocidental. Como a unificação
se deu muito rapidamente, acabou sendo traumática
para muitas pessoas, que perderam seus empregos.
Bulgária
A Bulgária sempre foi um país fielmente ligado
à União Soviética. Por isso, as mudanças
começaram apenas em 1989, quando o movimento já
estava muito adiantado em outros países da Europa
Oriental.
No final de 1989, começaram manifestações
exigindo reformas. Todor Jivkov, que estava no poder havia
35 anos, foi substituído por um dirigente identificado
com a perestroika, que prometeu implantar o pluripartidarismo
no país. Na mesma época surgiu a União
das Forças
Democráticas, que levou 100 mil pessoas às
ruas para exigir eleições livres e o fim do
regime de partido único.
As manifestações prosseguiram e, no início
de 1990, Jivkov foi preso e acusado de crimes contra o Estado.
O próprio Partido Comunista adotou a denominação
de Partido Socialista e passou a defender a economia de
mercado.
Ainda em 1990 foi eleita uma Assembléia Constituinte,
que elaborou uma nova Constituição, promulgada
no ano seguinte. Foi instaurada a democracia e definido
o parlamentarismo como forma de governo. Na economia, iniciou-se
o processo de privatização das empresas estatais.
Romênia
A onda de liberalização do Leste Europeu não
deixou de atingir a Romênia, governada com mão
de ferro por Nicolae Ceausescu durante 24 anos. Justamente
por sua resistência a acompanhar o processo desencadeado
pela perestroika, ele acabou derrubado do poder
de forma violenta e fuzilado no dia de Natal de 1989.
Na década de 1970, Ceausescu lançara um ambicioso
plano de industrialização, centralizado na
petroquímica e financiado por empréstimos
externos. Em meados da década, em decorrência
da crise internacional do petróleo, o déficit
comercial da Romênia atingiu cifras elevadas. Considerado
pelo Ocidente como um bom pagador, Ceausescu resolveu honrar
seus compromissos à custa de sacrifícios impostos
à população. Trabalho redobrado, racionamento
de gêneros de primeira necessidade, cortes no fornecimento
de energia, fazia-se de tudo para ampliar as exportações
e carrear recursos para os cofres públicos. Qualquer
contestação era duramente punida.
Como parte de seus planos, o ditador decretou a <i>romenização</i>
da minoria húngara que vivia no país. Esse
ato de força desencadeou forte reação
popular a partir da cidade de Timisoara, berço da
minoria húngara, em dezembro de 1989. Ceausescu mandou
reprimir com violência as manifestações.
Houve milhares de mortos. A revolta se intensificou mais
ainda, alcançando praticamente todo o país,
incluindo a capital. Diante disso, o Exército também
se revoltou, indo engrossar a oposição.
Permaneceu ao lado do ditador apenas a Securitate, sua polícia
secreta, que no entanto não deu conta de protegê-lo.
Ceausescu acabou preso quando tentava fugir de helicóptero.
Ele e sua mulher foram em seguida submetidos a um tribunal
militar, condenados à morte e fuzilados, diante das
câmaras de televisão.
Na falta de partidos de oposição oganizados,
foi criada a Frente de Salvação Nacional,
formada basicamente por ex-dirigentes do Partido Comunista
que haviam caído em desgraça sob o governo
de Ceausescu, tendo à frente Ion Iliescu.
Foi anunciado imediatamente o fim da censura, a liberdade
partidária, a dissolução da Securitate
e o fim do racionamento dos gêneros de primeira necessidade.
Em 1990 Iliescu foi eleito presidente por ampla margem de
votos.
A falta de uma tradição democrática
retardou a reorganização da sociedade romena.
Além de sofrer os problemas econômicos e políticos
próprios de um período de transição,
o país assistiu ao ressurgimento de grupos ultra-nacionalistas
e racistas, que pressionavam pela expulsão da minoria
húngara.
Apesar desses conflitos, em novembro de 1991 foi aprovada
uma
nova Constituição, que consagrou a propriedade
privada e estabeleceu diretrizes para levar o país
à abertura econômica, a exemplo dos demais
países do Leste Europeu.
Albânia
Último reduto do stalinismo na Europa, a Albânia
resistiu o quanto pôde aos ventos da abertura. Sob
a condução de Enver Hohxa, que governou o
país desde o fim da Segunda Guerra Mundial até
1985, a Albânia se isolou do mundo. Em 1961 afastou-se
até da União Soviética e do Comecon,
por não concordar com a desestalinização
proposta por Kruschev. Alinhou-se então com a China.
Sua política econômica sempre privilegiou a
indústria pesada, aproveitando as fontes de matéria-prima
existentes no país, como o petróleo e o cromo.
Na agricultura a regra era a coletivização.
A médio prazo, esse modelo fez o país atingir
a auto-suficiência em alimentos. Trocas no exterior,
só a dinheiro, e quando absolutamente imprescindíveis.
A
partir dos anos 80, já rompida também com
a China, a Albânia iniciou uma pequena aproximação
econômica com o Ocidente. Mas sua política
permaneceu inalterada até 1985, quando Enver Hohxa
morreu. Seu sucessor continuou com essas diretrizes, e o
país chegou ao final da década com um padrão
de consumo muito restrito. Produtos banais – absorventes,
por exemplo – não existiam no mercado local.
O governo apresentava, como conquistas importantes, bons
sistemas de saúde, educação, transporte
e habitação. Mas esse argumento não
sensibilizava os mais jovens, que ansiavam por um padrão
de vida melhor, que conheciam pelos programas de televisão
captados da Iugoslávia, da Itália e da Grécia.
Em julho de 1990, milhares de albaneses começaram
a invadir embaixadas estrangeiras na capital, Tirana, em
busca de asilo. O governo acabou autorizando a emigração.
Simultaneamente, tomou medidas para afastar os ministros
mais duros, que queriam reprimir a população.
Os albaneses conseguiram obter legalmente seus passaportes,
pequenas empresas familiares foram autorizadas a funcionar,
a entrada de capital estrangeiro foi permitida, ainda que
timidamente, e os camponeses foram autorizados a vender
sua produção aos preços de mercado.
Após o relaxamento da censura, foi concedida também
liberdade religiosa e partidária.
Finalmente, em março de 91, realizaram-se eleições
parlamentares, que deram 66% dos votos aos candidatos do
Partido do Trabalho, o Partido Comunista local.
Apesar desses avanços, parte da população
decidiu não esperar mais pela melhoria das condições
de vida, ainda bastante duras em comparação
corn os vizinhos mais prósperos.
Em agosto de 91, uma leva de 22 mil albaneses tentou emigrar
para a Itália, através de Brindise, no sul
do país. O governo italiano, que havia acolhido albaneses
anteriormente, dessa vez se recusou, pois o mercado de trabalho
no sul da Itália, região menos desenvolvida
do país, não comportaria tal volume de imigrantes.
Sob protesto, 17 mil albaneses foram repatriados.
Em março de 1992, novas eleições para
o Parlamento deram vitória ao Partido Democrático
(não-comunista). Era o fim da experiência socialista
na Albânia. |