A ressonância Schumann e a disparada do coração da Terra

Há pouco mais de um ano, em 5 de março de 2004, o ex-padre e teólogo Leonardo Boff publicou no Jornal do Brasil uma surpreendente matéria sobre possíveis alterações na Ressonância Schumann, nome dado a um fenômeno eletromagnético que ocorre na atmosfera terrestre, detectado pela primeira vez em 1952 pelo físico alemão W. O. Schumann.

A surpresa se deu pelas conseqüências que Boff atribuiu a essas alterações: desde os anos 80 e, mais acentuadamente a partir da década de 1990, o tempo estaria passando mais depressa, "a jornada de 24 horas, na verdade, é somente de 16 horas". Enquanto isso "desequilíbrios ecológicos se fizeram sentir: perturbações climáticas, maior atividade dos vulcões, crescimento de tensões e conflitos no mundo e aumento geral de comportamentos desviantes nas pessoas, entre outros". Em suma, nas palavras do teólogo, de lá para cá o "coração da Terra disparou"!

Depois da sua publicação, essa matéria passou a ser reproduzida em inúmeros sites da Internet e, mais recentemente, uma exibição de slides, sintetizando seus pontos principais, tem se espalhado por e-mails de todo o Brasil e, provavelmente, também do exterior. Perplexos, muitos professores de física - e esse é o nosso caso - têm sido consultados sobre a veracidade e procedência dessas informações.

Certamente poucos têm sabido o que dizer: embora inusitadas e aparentemente descabidas, essas afirmações são difíceis de rejeitar, pois, além de o fenômeno ser praticamente desconhecido da esmagadora maioria dos físicos e professores de física, a respeitabilidade do autor da matéria, e do jornal em que ela foi originalmente publicada, dá suficiente credibilidade a elas, o que impede esses professores de rejeitá-las de imediato, in limine, como dizem os juristas.

Assim, além de procurar esclarecer o fenômeno e suas conseqüências, procuramos aqui auxiliar nossos colegas professores de física a responder às possíveis indagações que, cedo ou tarde, fatalmente lhes serão feitas a esse respeito.


O que é ressonância

Ressonância não é propriedade de um corpo. Não faz nenhum sentido, em física, falar em ressonância de um corpo, muito menos de um campo, como diz Boff em sua matéria. Trata-se de uma propriedade ondulatória que envolve a interação de pelo menos dois corpos oscilantes. O exemplo mais conhecido desse fenômeno, embora quase ninguém o reconheça como tal, é o "ruído de mar" que ouvimos quando colocamos uma concha junto ao ouvido.

Na verdade esse ruído nada tem a ver com o mar, ele se origina da vibração do ar contido na concha ao entrar em ressonância com algumas das freqüências sonoras do som ambiente. Aliás, a concha é dispensável, basta colocar a mão em forma de concha junto ao ouvido para ouvirmos o mesmo "ruído de mar", mas com intensidade bem menor.

Qualquer cavidade que limite a movimentação das partículas de ar, colocada junto ao nosso ouvido, produz o mesmo efeito: pode ser um copo, uma xícara, um canudo de diploma, um pedaço de tubo de PVC ou qualquer outro objeto de forma semelhante.

Em síntese, para que haja ressonância é preciso pelo menos dois corpos oscilantes com freqüências naturais iguais ou múltiplas inteiras entre si. Se um deles é posto a oscilar próximo ao outro, este outro também passa a oscilar espontaneamente - ele entra em ressonância com o primeiro. Quem toca um instrumento de corda conhece bem esse fenômeno: se duas cordas próximas emitem o mesmo tom, basta fazer uma delas vibrar para que a outra também passe a vibrar espontaneamente.

As freqüências naturais são as freqüências espontâneas de oscilação de um corpo. Pode ser uma única freqüência, caso de uma lâmina vibrante, ou muitas freqüências, caso de uma corda vibrante ou de um tubo sonoro. Se prendermos a ponta de uma régua junto à borda de uma mesa e fizermos a extremidade livre da régua vibrar, ela vai oscilar em uma única freqüência, cujo valor depende do comprimento livre da régua e das propriedades elásticas do material de que ela é feita.

Se fizermos vibrar uma corda de violão ou o ar contido em uma corneta vão aparecer nesses corpos oscilações de várias freqüências compondo configurações específicas de vibração conhecidas como ondas estacionárias (esse nome é dado porque essas ondas estão confinadas nos limites da corda ou do tubo). Como acontece com a vibração da lâmina livre da régua, essas freqüências dependem do comprimento da corda ou do tubo e das propriedades físicas do material de que é feita a corda ou do ar. Veja a figura 1.

Fonte: Física - Série Brasil. A. Gaspar. São Paulo, Ática, 2003, p. 231 e 246.

(Fig. 1a)

(Fig. 1b)
a) Configurações possíveis para a formação de ondas estacionárias (modos de vibração) em uma corda fixa nas extremidades. A configuração de menor freqüência ocorre para n = 1 (n é o número de ventres); as outras configurações possíveis correspondem a n = 2, 3, 4, e assim por diante; b) Representação esquemática de ondas estacionárias em um tubo aberto nas duas extremidades. A configuração I corresponde à freqüência fundamental (n = 1); as seguintes (II, III e IV) correspondem aos harmônicos seguintes (n = 2, 3 e 4).

A propriedade mais importante da ressonância é a transferência de energia. Toda propagação ondulatória é uma propagação de energia. Quando um sistema oscilante gera uma onda com uma determinada freqüência, esta se propaga e parte de sua energia é transferida a outros sistemas oscilantes por ela atingidos, mas para aqueles sistemas que tiverem a mesma freqüência do sistema oscilante gerador, essa transferência de energia é máxima. Veja a figura 2.

Fonte: Física, v.2. A. Gaspar. São Paulo, Ática, 2000, p. 27 e 26.

(Fig. 2a)

(Fig. 2b)
a) Os pêndulos B, C, D e E têm comprimentos fixos, enquanto o pêndulo A tem comprimento variável. Quando se faz o pêndulo A oscilar, um dos pêndulos B, C, D ou E, de mesmo comprimento, e, portanto, de mesma freqüência, passa a oscilar espontaneamente, por ressonância. b) A transferência de energia por ressonância pode ser suficientemente intensa para destruir um corpo: esta foto de 1940 mostra o momento em que a ponte pênsil de Tacoma, cidade da costa oeste dos EUA, rompia-se depois de oscilar violentamente por ressonância, em decorrência dos ventos que sopravam na ocasião.

Não nos parece necessário ir além nesta explicação, o importante, neste caso, é a compreensão da natureza interativa do fenômeno da ressonância.


Ressonância eletromagnética

Os exemplos de ressonância dados até aqui são de ondas mecânicas, mas valem também para ondas eletromagnéticas com algumas diferenças. A primeira delas é a freqüência natural de uma onda eletromagnética. Nas ondas eletromagnéticas criadas para as telecomunicações (telefonia, rádio e televisão, principalmente) a freqüência natural de oscilação é, a rigor, artificial, pois ela é estabelecida pelo equipamento eletro-eletrônico que a gera, em obediência a determinações técnicas e oficiais.

No caso das estações de rádio que transmitem em FM no Brasil, por exemplo, essas freqüências devem estar compreendidas entre 87,8 MHz a 108 MHz. Mas, uma vez definida, a freqüência de uma emissora pode ser entendida como natural - vamos chamá-la de freqüência nominal, pois, nesse caso, muitas vezes ela se confunde com o nome da emissora (às vezes é o próprio nome).

Assim, suponha que a freqüência nominal de uma estação de rádio é 87,8 Mz. As ondas dessa estação, emitidas a partir de sua antena transmissora, preenchem praticamente todo espaço em torno dela até uma determinada distância (teoricamente o alcance é infinito mas na realidade ele é limitado pela potência do transmissor da emissora).

Para captar a emissão dessa estação é preciso estar na região em que essas ondas chegam com potência suficiente para serem detectadas por um aparelho receptor - o rádio, dispositivo eletrônico de freqüência variável. Como em uma mesma região chegam inúmeras ondas eletromagnéticas das mais variadas freqüências, é preciso sintonizar a estação que queremos ouvir, ou seja, selecionar dessas inúmeras freqüências apenas uma, a dessa estação.

Isso se faz pela variação da freqüência de detecção do rádio para que ela entre em ressonância com a freqüência nominal da estação que se quer ouvir. Ao entrar em ressonância, a transferência de energia dessa estação para o rádio torna-se máxima e capaz de acionar seu sistema eletrônico de recepção (o dispositivo da figura 2a possibilita uma boa analogia a esse processo: o pêndulo A é o rádio; os pêndulos B, C, D e E são as estações).

O "ruído de mar" das conchas permite outra analogia interessante. Assim como as conchas selecionam do ruído ambiente apenas algumas freqüências sonoras por ressonância, o rádio seleciona uma única freqüência de cada vez, a da estação que desejamos sintonizar. A rigor, a diferença entre a concha e o rádio é que ela é "pré-sintonizada", ou seja, a sua forma geométrica só lhe permite entrar em ressonância com determinadas freqüências, enquanto o rádio pode variar as suas freqüência de detecção. Em outras palavras, a concha equivale a um rádio sem botão de sintonia; o rádio, a uma concha de forma geométrica variável.

Assim, para que ocorra ressonância de ondas eletromagnéticas na atmosfera terrestre é preciso que nela existam pelo menos uma fonte geradora dessas ondas e um sistema oscilante que com elas possa entrar em ressonância. Ambos existem. Vamos apresentar primeiro o sistema oscilante, nesse caso chamado de "cavidade ressonante".


A cavidade ressonante da Terra

Resguardadas a forma e a escala das dimensões, as ondas eletromagnéticas se comportam na região compreendida entre a superfície da Terra e a ionosfera de forma análoga às ondas sonoras em tubo aberto nas duas extremidades, daí essa região ser considerada uma cavidade ressonante.

Na região externa a um tubo sonoro, as partículas de ar têm ampla liberdade de movimentos - as ondas sonoras formam ventres nessas regiões (veja a figura 1b); o mesmo ocorre com as ondas eletromagnéticas entre a superfície da Terra e na ionosfera - a abundância de elétrons livres nessas regiões as torna eletricamente condutoras, o equivalente eletromagnético à liberdade das partículas de ar fora do tubo.

Mas essa analogia precisa de pelo menos dois ajustes. O primeiro, em relação à geometria - a cavidade ressonante terrestre constitui-se de duas cascas esféricas paralelas entre si, algo bem diferente de um tubo. O segundo, em relação aos limites formados por essas cascas. Enquanto a casca inferior - a superfície da Terra - é bem definida, a casca superior - a ionosfera - não tem dimensões definidas nem no tempo, nem no espaço. A ionosfera, como seu nome indica, é uma região da atmosfera com alta densidade de íons - átomos que perderam um ou mais elétrons -, portanto suas dimensões dependem do número e da distribuição de elétrons livres da ionosfera.

Os íons formados e os elétrons por eles liberados se originam dos átomos dos gases que compõem a atmosfera por ação da radiação solar e dos raios cósmicos. Como essa ação é variável, sobretudo a da radiação solar, pois o movimento de rotação da Terra faz com que as regiões ensolaradas e as regiões de sombra se alternem ciclicamente, não é possível definir com precisão os limites da ionosfera. Grosseiramente, pode-se dizer que ela vai de 50 km a 2 000 km de altitude. Veja a figura 3.

Fonte: http://www.oulu.fi/~spaceweb/textbook/ionosphere.html


(Fig. 3)
Este gráfico mostra a curva média da densidade de plasma em função da altitude na atmosfera. Plasma são moléculas ou átomos de gás ionizado, por isso essa densidade mede também concentração de elétrons livres na atmosfera. O pico de densidade, de dia ou de noite, está entre 102 km e 103 km mas como essa escala é logarítmica (não linear) ele corresponde aproximadamente ao intervalo entre 150 km e 250 km. D, E e F indicam diferentes camadas da ionosfera; a camada E é a mais refletora - é principalmente a ela que nos referimos quando estabelecemos o limite superior da cavidade ressonante da atmosfera terrestre.

Para o nosso caso, interessam a região em que a densidade de elétrons livres é maior, entre 50 km e 150 km, onde predomina a reflexão das ondas eletromagnéticas. Esse é o limite superior da cavidade ressonante e define sua forma: uma casca esférica de 50 km a 150 km de espessura.

Como é muito difícil representar graficamente essa região podemos pensá-la bidimensionalmente, como se fosse um aro ou anel, o que torna possível mais uma analogia, desta vez das ondas eletromagnéticas estacionárias nessa região com ondas elásticas mecânicas em aros metálicos flexíveis. Veja as figuras 4 e 5 a seguir.

Fonte: http://www.blazelabs.com/f-p-prop.asp

Fonte:http://www.phy.davidson.edu/StuHome/
timv/IntLab/ChlaRes/hoop/hooppics.htm


(Fig. 4)

(Fig. 5)
A figura 4 mostra as possibilidades teóricas da ocorrência de ondas estacionárias em aros metálicos: n = 1, para um único ventre; n = 2 para dois ventres e assim por diante (na verdade, esse esquema foi construído para outra analogia que ilustra o princípio da dualidade onda-partícula para os orbitais dos elétrons no átomo de hidrogênio, mas aqui ele também é adequado); a figura 5 mostra uma demonstração experimental da ocorrência dessas ondas estacionárias. Nesse caso, ela ilustra a configuração correspondente ao n = 3 da figura 4.

Para completar essa analogia com as configurações de ondas estacionárias na cavidade ressonante da Terra é importante saber que nela não há camadas seqüenciais excludentes como sugere a figura 4 - todas as configurações que ali aparecem, mais as outras subseqüentes, nela podem coexistir em superposição.


A fonte geradora e a ressonância de Schumann

A fonte de toda onda eletromagnética é, em última análise, a oscilação de partículas eletricamente carregadas. Uma oscilação pode ser entendida também como um movimento efêmero e repentino, como o das descargas elétricas na atmosfera - os relâmpagos -, por isso essas descargas são fontes de ondas eletromagnéticas, na verdade pulsos eletromagnéticos, ou seja, ondas eletromagnéticas de curta duração (atualmente os rádios modernos têm filtros que minimizam esse efeito mas há algum tempo, não muito, era praticamente impossível ouvir rádio durante uma tempestade, tal a quantidade de ruídos das ondas eletromagnéticas geradas pelos relâmpagos). Veja a figura 6.

Fonte: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-47442002000100002&lng=pt&nrm=iso

(Fig. 6)
Uma classificação simplificada dos diferentes tipos de relâmpagos que aparecem na cavidade ressonante terrestre.

Além desse efeito individual, pode-se admitir um efeito conjunto, global, dessas descargas elétricas. Avalia-se que dentro da cavidade ressonante da Terra ocorrem cerca de 100 relâmpagos por segundo - é fácil imaginar que em muitos intervalos de tempo ocorram seqüências de descargas elétricas com certa regularidade gerando ondas eletromagnéticas com as mais variadas freqüências. Veja a figura 7.

fonte: http://www.iihr.uiowa.edu/projects/schumann/Index.html


(Fig. 7)

Representação esquemática das ondas eletromagnéticas geradas por relâmpagos na cavidade ressonante da atmosfera terrestre. A altura da ionosfera em relação à Terra está exagerada por razões didáticas; note que as configurações estacionárias representadas em vermelho correspondem às configurações n = 2 e n = 3 da figura 4.

A maior parte dessas ondas eletromagnéticas tem freqüências que não se "encaixam" na cavidade ressonante terrestre e se dispersam rapidamente, por isso são chamadas de whistler waves ("ondas apito" em inglês); outras, ao contrário, "encaixam-se", ou seja, entram em ressonância - é a esse fenômeno que se dá o nome de Ressonância Schumann, pois foi o físico W. O. Schumann quem o detectou pela primeira vez.

As freqüências das ondas eletromagnéticas que podem entrar em ressonância com a cavidade ressonante terrestre são de há muito conhecidas. O seu cálculo é simples e acessível a todo bom aluno de física do ensino médio - baseia-se na expressão  (veja Física, v. 2, Alberto Gaspar. São Paulo, 2000, p. 82) das freqüências (fn) das ondas estacionárias do equivalente mecânico dessa cavidade, o tubo sonoro aberto nas extremidades.

Sendo v = c = 3,0.108 m/s a velocidade das ondas eletromagnéticas no vácuo e l = 20 000 km = 2,0.107 m o comprimento desse "tubo" (neste caso há muitos comprimentos possíveis; adota-se o comprimento máximo, correspondente ao comprimento aproximado do equador terrestre) obtêm-se os valores abaixo:

n (modo de vibração)

1

2

3

4

5

6

7

....

fn (Hz)

7,5

15

22,5

30

37,5

45

52,5

....

A detecção de ondas eletromagnéticas é feita por meio de antenas que têm máximo rendimento quando suas dimensões são iguais à metade do comprimento de onda da onda a ser captada. Assim, a antena mais adequada para captar uma estação em FM que transmite com freqüência de 102 MHz, por exemplo, deve ter 17 cm (a divisão de f = 102.106 Hz por v = 3,0.108 m/s dá o comprimento de onda, l = 0,34 m; metade desse comprimento de onda dá o comprimento da antena). O mesmo cálculo, para dimensionar uma antena para detectar a freqüência fundamental das ondas estacionárias na cavidade ressonante terrestre, 7,5 Hz, resulta em uma antena de 20 000 km de comprimento!

Esse dado tornou evidente a impossibilidade de adotar os dispositivos tradicionais de detecção e obrigou os pesquisadores a criar sistemas específicos, o que só foi conseguido por Schumann em 1952. De lá para cá essas detecções tornaram-se corriqueiras - os valores experimentais médios obtidos em diferentes locais diferem ligeiramente entre si e também dos valores teóricos expressos na tabela acima. Veja a seguir um conjunto desses valores e o gráfico correspondente aos três primeiros modos de ressonância:

n (modo de vibração)

1

2

3

4

5

6

7

....

fn (Hz)

7.8

14

20

26

33

39

45

....

Fonte: http://www.oulu.fi/~spaceweb/textbook/schumann.html
Três primeiros modos da Ressonância Schumann; o pico maior (17 Hz) se deve à interferência da rede ferroviária sueca que passa nas vizinhanças de Kilpisjärvi, cidade finlandesa onde foram coletados esses dados (UTC é a hora universal, correspondente ao fuso horário de Greenwich).

Essa divergência de valores experimentais e teóricos deve-se prioritariamente à variabilidade do limite superior da cavidade ressonante terrestre e à fixação arbitrária do comprimento dessa cavidade, que se admitiu igual ao comprimento do equador terrestre.


Qual a importância da ressonância de Schumann?

No âmbito da ciência, a Ressonância Schumann é um fenômeno de interesse quase exclusivo dos meteorologistas - ele permite monitorar indiretamente o nível global de incidência de descargas elétricas na atmosfera, pois grande parte delas ocorre em regiões isoladas ou inacessíveis. Muitos pesquisadores da NASA utilizam medidas da Ressonância Schumann rotineiramente para seus estudos da precipitação pluviométrica e do aquecimento global.

Como os relâmpagos estão associados às chuvas e tempestades e estas, por sua vez, à temperatura do nosso planeta, o aumento da intensidade das ondas estacionárias detectadas indica maior incidência de descargas elétricas e estas, de chuvas e tempestades. E, por fim, o aumento da incidência destas últimas indica o aumento da temperatura do planeta.

Assim, um acréscimo de cerca de 7% na incidência de descargas elétricas permite inferir que há um aquecimento global da ordem de 1 ºC. Esta porcentagem deve ser tomada com ressalvas, pois há uma discrepância muito grande nos valores encontrados por nós em diferentes pesquisas. A mesma variação de temperatura, 1 ºC, está relacionada a diferentes porcentagens de acréscimo na incidência de descargas elétricas, desde 5% até 40%.

Mais recentemente, nos últimos dez anos, a Ressonância Schumann tem interessado também aos biofísicos e neurocientistas. Uma razão para justificar esse interesse está na coincidência entre as faixas de freqüências de ondas cerebrais detectadas nos eletroencefalogramas (ondas teta, de 4 a 7 Hz; ondas alfa, de 8 a 13 Hz e ondas beta, de 14 a 30 Hz). Há várias pesquisas já realizadas e outras em curso buscando encontrar possíveis relações e conseqüências decorrentes da proximidade entre os valores das nossas freqüências cerebrais e das freqüências da Ressonância Schumann. Nenhuma delas permite inferências muito relevantes, todas as que encontramos estão ainda ao nível da especulação.

Deve-se lembrar que a descoberta do fenômeno é recente mas o fenômeno não, pois ele depende predominantemente de causas naturais - a radiação solar, os raios cósmicos e as descargas elétricas na atmosfera - sobre as quais ainda temos pouca influência. Assim, se existe alguma interação entre a Ressonância Schumann e os seres vivos ela deve ter se mantido praticamente inalterável há séculos e, presumimos, ela já está incorporada a nossa história genética.

Por essa razão, presume-se que algo notável só poderia ocorrer se o fenômeno apresentasse alguma alteração brusca e relevante. Essa é a hipótese em que se assentam os estranhos vaticínios de Leonardo Boff, ou melhor, de sua fonte, o guru Gregg Braden, 50 anos, "rara mistura de cientista, visionário e sábio com a habilidade de falar para as nossas mentes", como ele se apresenta em seu site www.greggbraden.com.


As incríveis revelações de Gregg Braden

Antes de ser um próspero conferencista, guia de viagens para locais sagrados do mundo, autor de livros esotéricos, fitas, DVDs e outros produtos do gênero, Gregg Braden foi projetista sênior de sistemas computacionais em uma empresa aeroespacial, geólogo computacional em uma empresa petrolífera e, mais tarde, gerente técnico de operações da Cisco Systems.

Ainda segundo o seu site, ele é hoje "a principal autoridade capaz de estabelecer a ponte da sabedoria entre o nosso passado e a ciência e a paz do nosso futuro. Em sua jornada por remotos vilarejos nas montanhas, templos e monastérios, em tempos de paz, Braden uniu a sabedoria e as antigas tradições com a ciência moderna para a melhoria de nossas vidas nos dias de hoje".

É bem provável que, buscando essa "união de sabedorias", Braden tenha descoberto a Ressonância Schumann e inferido suas esotéricas implicações, publicando-as em 1997, em Awakening to Zero Point: The Collective Initiation (Despertando para o ponto zero: a iniciação cooperativa), um dos muitos livros de sua autoria.

O livro contém as revelações por ele recebidas em 1987, enquanto orava e meditava no deserto do Sinai, anunciadas pelo soar de sinos (esse som permaneceu em seus ouvidos até a publicação do livro; não conseguimos saber se ainda os escuta). Em seguida, uma torrente de informações atravessou todo o seu corpo. "Parecia que toda a eternidade se passava em um instante", diz ele, enquanto recebia o instrumental para nos oferecer "a informação do despertar".

A idéia principal apresentada no livro é a aceleração do tempo: a impressão que muitas pessoas têm de que o tempo atualmente passa mais depressa não é uma ilusão, é realidade. O dia não tem mais 24 horas, mas 16, pois o coração da Terra está acometido de uma taquicardia causada pelo aumento da freqüência da Ressonância Schumann. Segundo Braden, desde a década de 1980, o valor inicial dessa freqüência, 7,83 Hz (ele só se refere ao valor da freqüência fundamental, como se fosse a única), teria se elevado para 11 Hz e, mais recentemente, para 13 Hz.

Seu livro não se limita a essa revelação, há uma verdadeira cascata de informações do gênero, como a previsão de que a Terra vai inverter os seus pólos magnéticos (o que não é novidade, isso já ocorreu centenas de vezes desde que o planeta se formou, não por vontade do planeta, é claro) e o sentido do seu movimento de rotação (fisicamente, um completo absurdo, pois nenhuma força age sobre a Terra; ela gira por inércia. Não é um ventilador de teto que pode ter sua rotação invertida quando se aciona uma chavinha).

Tendo em vista o nosso objetivo inicial, vamos nos restringir aos efeitos que Braden atribui à Ressonância Schumann e sua possível variação repentina, divulgados entre nós pelo artigo de Leonardo Boff. Para facilitar a argumentação, vamos resumi-la em quatro itens:

I) Do ponto de vista da física, como vimos, a origem desse fenômeno se restringe a uma camada da atmosfera terrestre. Para uma primeira avaliação do possível efeito desse fenômeno sobre o planeta como um todo, é interessante estabelecer uma relação entre as dimensões da Terra e as dimensões da camada da ionosfera em que o fenômeno ocorre. Se construirmos um modelo em escala da Terra com 1 m de diâmetro, essa camada teria 5 mm de espessura; seria apenas uma espécie de penugem diáfana praticamente imperceptível dentro da qual se formam as ondas estacionárias originárias da Ressonância Schumann.

II) A irrelevância de suas dimensões, no entanto, não impede que a cavidade ressonante terrestre seja um indicador dos males do "coração da Terra" - a medicina utiliza indicadores tão ou até mais sutis para seus diagnósticos -, se fosse possível saber que órgão é esse, onde está, como se manifesta e interage fisicamente com essa cavidade. Como a física, e todas as demais ciências, não tem essas respostas, não é razoável aceitar cientificamente que essa diáfana camada superficial possa refletir o pulsar de tal coração ou dele ser "uma espécie de marca-passo", como diz Leonardo Boff.

III) Supor que a passagem do tempo tenha alguma relação com a freqüência dessas quase imperceptíveis ondas estacionárias é puro nonsense. Há quem imagine que a passagem do tempo dependa da rotação da Terra - se um dia a Terra parar de girar o tempo também pára (curiosamente só interessa a rotação, a translação relacionada diretamente ao "Ontem foi Carnaval, dentro de pouco será Páscoa, mais um pouco, Natal", a que Boff se refere, é completamente ignorada).

É uma idéia absurda, mas até certo ponto compreensível, afinal utilizamos a rotação da Terra como relógio (no cinema, o Super-homem, para salvar a sua amada, conseguiu fazer o tempo voltar, invertendo a rotação da Terra), mas supor que as débeis oscilações dessa quase imperceptível camada ressonante possam alterar o transcurso do tempo, que afinal não se vincula apenas à Terra mas aos trilhões de trilhões de trilhões de astros que povoam o universo, seria uma ingenuidade de causar pena.

Seria, porque ao que tudo indica, a ingenuidade está em quem acredita nessas idéias, o "cientista, visionário e sábio" que as divulga o faz com indiscutível má-fé. É pouco provável que uma pessoa com a formação científica de Gregg Braden acredite no que diz, embora venda - strictu e lato sensu - essa idéia ao seu ingênuo público. A prova da má-fé está na principal causa por ele atribuída para a taquicardia terrestre, e este é o nosso quarto e definitivo argumento.

IV) Segundo Braden, a taquicardia terrestre se deve ao aumento recente da freqüência da Ressonância Schumann. Essa afirmação é inteiramente falsa, um verdadeiro estelionato científico. Como mostra a figura 8, desde que as medidas dessas freqüências começaram a ser feitas, elas têm se mostrado absolutamente estáveis.

Fonte: http://quake.geo.berkeley.edu/ncedc/em.intro.html

(Fig. 8)
Variação dos valores da primeira freqüência de ressonância da cavidade ressonante da ionosfera terrestre, no período compreendido entre 1990 e 2000, obtidos em Arrival Heights, base neozelandesa localizada na Antártica.

Note que o período compreendido pelo gráfico, 1990 a 2000, é aquele que, segundo Braden, a freqüência da ressonância estaria em 13 Hz ou mais. Essa freqüência, sempre apresentada por ele no singular, é mais uma mostra da sua evidente má-fé. É altamente improvável que ele não saiba que não há uma única freqüência de ressonância, mas uma série delas e que 7,8 Hz, como diz a legenda do gráfico acima, é apenas a primeira freqüência de ressonância.

Restringir a argumentação a uma só, sabendo que há uma série delas, é um excelente álibi para dissipar possíveis desconfianças de seus seguidores: se algum deles lhe perguntar se é verdade que essas freqüências estão mesmo aumentando ele poderá dizer com esotérico cinismo: "claro, já foram obtidas até freqüências de 45 Hz!". E não estará mentindo...


Uma reflexão final

Quem conhece a história de vida de Leonardo Boff sabe que não se pode atribuir a ele a desonestidade e o mau-caratismo de seu guru. Leonardo Boff é, sem dúvida, uma pessoa honesta e bem intencionada. No entanto, acreditou e, o que é pior, avalizou e deu credibilidade não só a uma hipótese absurda, mas a uma farsa científica. Infelizmente as pessoas honestas e bem intencionadas costumam crer que todos são como elas - se alguém se diz cientista e afirma que determinados resultados foram obtidos é porque eles de fato foram obtidos.

É bem provável que Leonardo Boff tenha sido traído por essas afirmações porque elas vieram ao encontro de suas próprias convicções. Assim como inúmeras pessoas, entre elas muitos cientistas, ele acredita que a Terra é um organismo vivo e, como tal, deve ter um coração. É possível até que isso seja verdade, mas não é possível apoiar essa crença na ciência, ao menos por enquanto. Nenhuma ciência atual é capaz de encontrar fundamentos teóricos ou empíricos capazes de apoiar essa hipótese. Isso não significa que a Terra não tenha vida nem coração, mas que vida e coração, conceitos da ciência atual dos homens, não são aplicáveis a Terra.

A física quântica é uma compreensível esperança, não pelo que se sabe dela hoje, mas por ter-nos mostrado a imensa extensão da nossa ignorância: a natureza é extraordinariamente mais complexa do que os físicos imaginavam no final do século XIX, quando, também ingênuos, acreditaram ter descoberto todos os seus segredos. Mas isso é tudo.

Ela mostrou aos físicos que o oceano do conhecimento que imaginavam dominar era apenas um mar interior - o verdadeiro oceano do conhecimento era muito maior e cheio de surpresas. Mas só agora ele começa a ser explorado. É possível que, com o tempo, nele se descubram sinais de vida da Terra e se ausculte o seu coração. Por enquanto ainda estamos limitados a um marzinho interior e nele, infelizmente, isso é impossível.

Alberto Gaspar
(Doutor em Educação pela USP, Prof. de Física da Unesp-Guaratinguetá e autor da Ática)

Fontes:

Sobre o artigo de Leonardo Boff
http://www.portalalpha.com.br/LivrePensar.asp?identificacao=38;
http://www.r2cpress.com.br/modules.php?name=News&file=article&sid=466

Sobre eletricidade atmosférica e camadas atmosféricas
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-47442002000100002&lng=pt&nrm=iso
http://www.labre-ba.org.br/Radioamadorismo/propagacaofundam.htm
http://www.angeloleithold.hpg.ig.com.br/ciencia_e_educacao/6/index_int_3.html
http://home.gwi.net/~erichard/atmelect.htm

Sobre ressonância em aros e anéis
http://www.comciencia.br/reportagens/fisica/fisica03.htm
http://www.phy.davidson.edu/StuHome/timv/IntLab/ChlaRes/hoop/hooppics.htm

Sobre a Ressonância Schumann
http://www.oulu.fi/~spaceweb/textbook/schumann.html
http://quake.geo.berkeley.edu/ncedc/em.intro.html
http://radio-research.bei.t-online.de/schumann/schumann.htm
http://www.iihr.uiowa.edu/projects/schumann/Index.html
http://www.co2andclimate.org/climate/previous_issues/vol4/v4n1/cutting1.htm
http://nigec.ucdavis.edu/publications/ar/annual95/northeast/project07.html
http://pgi.kolasc.net.ru/seminar/archive/2004/Proceedings/3_waves/maltsev_roldugin.pdf

Sobre biofísica, neurociência e Ressonância Schumann
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http://chrono.umin.jp/htm/H400107.htm
http://salve.slam.katowice.pl/Coronal1.htm#Week
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Sobre Gregg Braden e suas afirmações
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http://www.crystalinks.com/schumannresonance.html
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http://www.crawford2000.co.uk/sch2.htm
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