Gattaca: o futuro?

Clonagem, engenharia genética, organismos geneticamente modificados, Projeto Genoma Humano, terapia gênica: a moderna biotecnologia tem potencial para alterar profundamente a natureza e o próprio ser humano, e vem levantando polêmicas éticas.

O filme Gattaca - A Experiência Genética nos leva a pensar sobre as implicações éticas da engenharia genética. O filme pertence à linha de ficção científica de outros filmes, como Blade Runner, de Ridley Scott, e de livros como Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, que tratam com apreensão as conseqüências da tecnologia no futuro. Não são exatamente "utopias", mas "distopias".


O filme

O filme se passa em um futuro, talvez bem próximo, em que as técnicas de engenharia genética seriam capazes de orientar a produção de filhos "perfeitos". No entanto, alguns casais ainda seguem o "método tradicional" e deixam que as leis da meiose e da fecundação ao acaso gerem seus filhos, chamados "In-Válidos". É assim que nasce o personagem principal do filme, Vincent (talvez uma alusão a "vencedor").

Vincent trabalha em uma empresa de vôos espaciais, GATTACA. Essas letras representam as bases nitrogenadas do DNA e são semelhantes a um trecho do DNA cortado por um tipo de enzima de restrição, que são as enzimas fundamentais para a engenharia genética, já que permitem cortar o DNA de um organismo e inserir o DNA de outro organismo.

Vincent está determinado a fazer parte de uma equipe em um vôo para Titã, uma lua de Saturno. Para isso, porém, ele tem de esconder sua "identidade genética", já que possui um problema cardíaco sério, que provocará sua morte por volta dos 30 anos. Vincent esconde esse problema apresentando nos exames amostras do sangue e da urina de Jerome, um indivíduo geneticamente "perfeito", que, por acidente, ficou paraplégico. 


Questões éticas

A bioética estuda os problemas éticos ligados às pesquisas em biologia e medicina e às suas aplicações. Ela discute, portanto, as implicações morais (o que é certo, o que é errado) das aplicações da medicina e da biotecnologia. 

Assim, a bioética procura responder às questões do tipo: Devemos clonar um ser humano? Podemos usar células de embriões em fase inicial de desenvolvimento para o tratamento de doenças? Seria ético que os pais escolhessem o sexo e outras características da criança? Uma pessoa deve ser informada se um teste genético indicar que ela poderá desenvolver uma doença incurável no futuro? Empresas e companhias de seguro têm o direito de realizar testes genéticos em seus funcionários ou em candidatos a um emprego para detectar doenças que poderão se desenvolver no futuro?

Já dispomos de testes genéticos capazes de prever a chance de certas doenças graves se manifestarem. No futuro, pode ser possível usar a engenharia genética para prevenir o aparecimento de certas doenças e também para escolher filhos sem determinadas doenças. Isso já pode ser feito em relação às doenças recessivas ligadas ao cromossomo X. Nesse caso, são usadas técnicas de reprodução assistida para implantar apenas embriões femininos e heterozigotos para a doença. Mas será que esses procedimentos ficarão restritos às doenças ou as pessoas poderão se achar no direito de escolher algumas características de seus filhos, como a cor dos olhos ou o nível de inteligência? Será que haverá então uma divisão entre os que poderão pagar por esses testes e, em alguns casos, por sua cura, e os que não poderão? Nesse caso, haveria o risco de uma discriminação baseada no código genético de cada um.

As questões não param: É desejável uma sociedade que controla e determina o que cada um deve querer ou pode realizar? E quem decide esse controle? É justo discriminar e cortar o acesso ao que uma pessoa quer a partir de "imperfeições" genéticas, como ocorre com Vincent, em oposição a seu irmão perfeito (Anton), que, por isso, tem todas as chances? E qual o critério de perfeição? Imperfeito é aquele que é "diferente"? Aliás, no filme aparece um pianista de seis dedos em cada mão, capaz de tocar uma peça especialmente criada para ele. Os seis dedos representam uma "imperfeição"?

Será que alguém, para ser feliz, tem de ser "perfeito"? No filme, descobrimos que Jerome Eugene ("eugene", em grego, significa "bons genes"), o amigo paraplégico de Vincent, tenta se matar por não ter vencido um concurso.


O destino não está escrito nos genes

O filme dá a entender que, apesar de suas imperfeições, Vincent tem uma determinação que lhe permite vencer suas limitações, ir para o espaço (talvez uma metáfora para a capacidade de escapar do peso do corpo, isto é, de suas deficiências genéticas) e até vencer seu irmão mais "perfeito" em uma aposta de natação. A força de Vincent viria então de uma capacidade de livre arbítrio, capaz de modificar seu "destino genético". Genes, afinal, não são destino, mas propensões. Isso quer dizer que os genes são um dos fatores que influem em nossas características. Não podemos esquecer que o ambiente - em sentido amplo, o que inclui a cultura e os fatores psicossociais - também deve ser levado em conta. Além disso, o fato de que podemos prever as conseqüências de nossas ações - inclusive em um futuro distante -, aumenta nosso poder de modificar nosso comportamento.

Devemos considerar também que o problema não é a ciência, mas sim como decidimos aplicar o conhecimento científico. A pesquisa científica pode criar medicamentos que salvam vidas, mas pode também criar armas de destruição em massa. O fundamental é que a sociedade esteja bem-informada para tomar decisões, baseadas em princípios éticos, de modo a usar a ciência para melhorar a qualidade de vida dos seres humanos e para manter a saúde ambiental de nosso planeta. Cabe então à sociedade decidir seu futuro.

Finalmente, é um erro inferir como as coisas devem ser a partir de como as coisas são. Independentemente do papel do gene nas características, o que é determinado ou influenciado geneticamente não é necessariamente bom (ou mau), nem deve necessariamente ser estimulado.

A diferença entre o que é e o que deve ser implica em que, mesmo no caso de existir uma influência genética nas diferenças de habilidades (em termos estatísticos) entre indivíduos, qualquer pessoa deve ter o direito de desenvolver seu potencial como achar melhor. Não é possível extrair um juízo de valor a partir de uma teoria científica. Em outras palavras: valores pertencem à esfera ética e não à esfera científica, e a ciência não pode dar conta de todas as necessidades humanas, nem é a única forma de conhecer e de se relacionar com o mundo.

(Julho de 2005)

Fernando Gewandsznajder
(Licenciado em Biologia, doutor em Educação, professor de Biologia no Colégio Pedro II-RJ e autor de livros de Ciências e Biologia pela Ática)

Fontes:

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Na Internet

http://www.bioetica.ufrgs.br/bioetica.htm.

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