Do outro mundo
Ana Maria Machado

Quando Léo, Elisa, Mariano e Terê foram passar uns dias numa antiga fazenda, nunca imaginaram que iriam ver um fantasma. E, menos ainda, que iriam ficar amigos dele. Ou melhor, dela. O espírito que encontram é da jovem Rosário, uma ex-escrava da própria fazenda. Noite após noite, ela conta aos garotos a história secreta de sua morte. Agora, só eles podem fazer Rosário deixar de vagar eternamente pela propriedade. Por trás da aventura repleta de mistérios e surpresas, ganha destaque uma discussão profunda e sempre oportuna sobre a escravidão.


1. Possibilidades Pedagógicas

- Do outro mundo pode ser a oportunidade de o professor de Língua Portuguesa motivar a leitura daqueles adolescentes resistentes à literatura como atividade didática. Esses alunos com certeza se identificarão imediatamente com o narrador, Mariano, o personagem que escreve a história: "No colégio, se pudesse, não lia mesmo. Perguntava a um colega como era a história, embromava um pouco, e pronto, me virava de qualquer jeito na hora da prova. Sempre soube que não vou mesmo precisar dessas coisas. Vou estudar informática. Me amarro em computador. Número. O mundo do futuro. Profissão que dá dinheiro. Um dia ainda vou ganhar muita grana. E com toda a certeza não vou precisar de livro pra isso. Pelo menos era o que eu sempre achei, agora já começo a duvidar." (p. 12).

- A motivação para vencer os desafios da escrita também aparecerá para aqueles que, não gostando de leitura, rejeitam o exercício da produção de texto. O desafio que Mariano enfrenta para escrever a história, com a ajuda e os palpites dos amigos, é como um jogo de montar: "(...) Vamos então armar o quebra-cabeça. Ou jogar dominó, se você preferir. Primeira peça: naquela noite, a Rosário disse que morava aqui. Segunda: o Léo depois descobriu que aqui era a senzala.
- (...), então quer dizer que a Rosário deve ser uma escrava...
- Deve ou devia?
(p. 63)

- A história Do outro mundo é um desafio à capacidade de o leitor fazer relações já no título. No sumário, a autora apresenta as peças do quebra-cabeça ou do dominó: em quatro títulos de capítulos aparece a relação preto/branco (p. 1, 5, 7 e 8) , em dois a relação entre transparência e iluminação (p. 3 e 6) e aos outros dois relaciona a comunicação de emoção (p. 2) pelas possibilidades da linguagem verbal, conversa (p. 4) e escrita (p. 9). As hipóteses de significado das peças e de suas relações estabelecidas pelo leitor no início do livro podem ser comprovadas no último capítulo, "Escravo, escrevo": "(...). Sobre ele, um prato de comida – feijão com arroz. Uma caneca e dois bules – café com leite. Peças de dominó – pretas com pintas brancas. Um galo carijó, de penas riscadinhas de claro e escuro, ciscando em volta. Um livro aberto – letras em tinta negra sobre papel alvo." (p. 97). Desafio, jogo, leitura. De outro tempo. De outra vida. Do outro mundo. (p. 12).

 

2. Abordagens Interdisciplinares

Língua Portuguesa
- Os processos de leitura e de produção de texto: diálogo com o leitor (p. 11), marcas da oralidade ("Me amarro...", p. 12) e marcas da escrita (p. 23), sentido figurado e sentido literal ("morri de rir", p. 81 e 82), escrita e revisão/reescrita (p. 81 e 82), intertextualidade (p. 123).
- Elementos fundamentais da narrativa (conferir nota na síntese da obra e Sugestão Didática B do Suplemento de Leitura do livro/exemplar do professor).

História
- A história do nome de cada um (história individual) como parte de histórias coletivas (sobrenomes, p. 104; localidade, p. 117).
- A escravidão no Brasil de 1888 (leis: Ventre Livre, Sexagenário e Áurea) até a atualidade: mudanças e permanências (p. 101) (conferir Sugestão Didática D no Suplemento de Leitura do livro/exemplar do professor).
- O Holocausto (p. 76).
- Judeus e cristãos novos (p. 104).

Geografia
- Bacia do rio Paraíba (Pardo e Rio das Pedras): cultura do café e do gado (p. 13).

Arte
- Arte visual: gravuras e biografia de Rugendas e Debret (conferir Sugestão Didática D no Suplemento de Leitura do livro/exemplar do professor).
- Jogo envolvendo a linguagem visual: quebra-cabeça, p. 38 e 60 (relação forma e cor) e dominó, p. 61 (relação cor e número de pontos).

 

3. Temas Transversais

Ética
- O valor da liberdade (p. 86) em oposição aos valores da escravidão (p. 76).
- A solidariedade como valor (p. 81).
- O repúdio a qualquer julgamento preconceituoso.

Pluralidade Cultural
A identidade do brasileiro: pluralidade de raças e de culturas (p. 100).

Saúde e Educação Sexual
- Miopia e problemas de leitura (p. 12).
- A questão de gênero na adolescência (p. 15).
- Egoísmo e egocentrismo na adolescência (p. 15).

Trabalho e Consumo
– Emprego e empreendedorismo (p. 16 a 20): planejamento e retorno de investimento.